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Por: Paulo Pereira   13/07/2011 - 09h33m


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O trabalhador brasileiro, até chegar ao "portão da fábrica" (sua empresa no caso), naturalmente é visto como um cidadão pleno, como nome, endereço, profissão, enfim com uma identidade própria, exceto nas inadmissíveis situações de preconceito e discriminação que, infelizmente, ainda permeia boa parte de nossa sociedade.
 
Como cidadão, ele participa da educação de seus filhos, participa como um contribuinte (compulsório) de impostos - diretos e indiretos, participa como consumidor de bens e serviços, participa de cultos religiosos segundo suas crenças e convicções, participa como eleitor de seus governantes, em todos os níveis (bem ou mal não vem ao caso), participa de movimentos ecológicos, entre tantas ações de participação em nossa sociedade. Até aí, normalmente, ele é visto e tratado como um adulto responsável, como um cidadão efetivo, cada qual com seus direitos e deveres.
 
Mas, ao atravessar o "portão da fábrica" um fenômeno acontece. Ele passa a ser desqualificado, perde sua identidade, não é reconhecido como um indivíduo. Seu nome agora soa de forma pejorativa: operário, bóia fria, braçal, horista, mensalista, pessoal operacional, chapa, e por ai afora.
 
Passa a ser usado como massa de manobra por todos - empresários e seus gerentes, sindicatos e também por governantes e políticos em geral.
 
Do "portão da fábrica" para dentro não lhe é permitido participar de mais nada. Não tem nada que pensar - prerrogativa dos chefes - e só cumprir as determinações. Tratam-no como se seu cérebro, sua alma e seu coração tivessem ficado na portaria, esperando o ainda existente e repugnante toque da sirene ao final do expediente, que para muitos parece que nunca chega, tal o descaso e desrespeito de como é tratado durante o dia.
 
A empresa deseja que ele entre apenas com seus movimentos mecânicos e orgânicos, de preferência se estiverem em perfeitas condições de uso máximo, e desde que o relógio de ponto não o tenha acusado de irresponsável, por ter chegado atrasado, mesmo que involuntariamente, por causa de enchentes, dos congestionamentos e coisas do gênero.
 
Coitado dele se alegar problemas pessoais, destes que só acontecem com um trabalhador feito ele, como por exemplo: um mal estar, problemas familiares, etc. Além de toda a humilhação e voltar para casa e ter que dar explicações aos familiares ele ainda vai perder o seu sustento no dia. Pior ainda, vai ser castigado e poderá perder também o equivalente ao seu descanso semanal. Feliz dele se não for advertido por escrito ou outra punição mais severa, incluindo aí a perda do emprego.
 
Precisamos acordar urgentemente e reconhecer o óbvio. Os modelos de gestão autoritários - paternalistas ou não - já não estão sendo suportados pelas pessoas, em qualquer área de atividade, seja sistema de ensino, de governo, de religião e, principalmente, o existente nas relações capital e trabalho.
 
Há uma efervescência de fatos em nossa história mais recente que sugerem isto. Ditadores são executados (ou tirados a força) sumariamente, muitos cubanos se arriscam em perder as próprias vidas como comida para tubarões em alto mar, a União Soviética foi desmantelada, já nem temos mais lembrança da imagem do Muro de Berlim, a África do Sul já é presidida por quem já foi perseguido e execrado.
 
Felizmente, ainda que tardiamente e de forma incipiente, nas relações de trabalho, no mundo como um todo, já estamos percebendo pequenos sinais de democratização. Um novo modelo, ou um novo estilo, de administração mais participativo, por assim dizer, vendo sendo implementado, experimentalmente, em algumas empresas no Brasil e em algumas partes do mundo como um todo.
 
As dificuldades que estas empresas tem enfrentado e continuarão a enfrentar por muito tempo com a tentativa de experimentar este novo modelo já se fazem sentir, a começar pelo fato de só mais recentemente, coisas de 10 anos, respiramos ainda um incipiente ar de democracia em nosso país, não plenamente consolidada, nem incorporada como definitiva entre nós. Mais do que isto, pois sistematicamente ela é ameaçada pelos que mais deveriam defende-la, ou seja, nossos congressistas e governantes, com seus desmandos, irresponsabilidades, roubalheiras, corporativismo, etc, problemas estes ainda muito presentes em nosso dia-a-dia.
 
O próprio trabalhador, por mais paradoxal que possa parecer, também cria dificuldades. Muitas vezes por desinformação, falta de hábito, despreparo, por falta de estímulos, etc. e por estar com suas preocupações mais voltadas para outras necessidades mais imediatas, como melhores salários, melhores condições ambientais, com a manutenção do próprio emprego. Ele não consegue perceber que tudo isto pode vir junto com participação, democracia e respeito. Muitos rechaçam o modelo porque ele traz consigo um aumento das responsabilidades de cada um, o que é verdade. Rechaçam por não perceberem que por trás das novas responsabilidades eles adquirem também mais autonomia, mais poder de decisão e envolvimento.
 
Muitos sindicalistas, acostumados a "vender ilusões", na prática, pouco fazem para estimular a participação, muito embora a retórica seja outra. Muitos ainda só sabem agir e se destacar em ambientes cujo lema é do quanto pior melhor. Quanto pior o ambiente e o patrão, mas o papel deles se destaca.
 
Muitos profissionais de RH, uma grande parte deles, não têm consciência de seu papel enquanto facilitador neste novo modelo. Muitos ocupam essa posição sem a qualificação desejável e vivem sufocados embaixo de estruturas administrativas e financeiras, sem qualquer apoio e incentivo. Até por receio, acabam não sendo pro-ativos na questão. Em muitos casos, quando são qualificados e preparados para o desafio e apresentam como proposta este novo modelo, são vistos e tratados como poetas ou sonhadores.
 
Os diretores, gerentes e chefes resistem ao novo modelo porque vêm seus cargos sendo esvaziados e o poder sendo compartilhado com subordinados. Não estão acostumados obterem resultados através de pessoas sem a imposição do medo, manipulação e outras chantagens e ameaças do gênero. Não percebem que com a liberação de poder, acabam transferindo também responsabilidades.
 
Os empresários, por sua vez, também com raríssimas exceções, padecem do mesmo mal de seus diretores, gerentes, chefes e encarregados, agravado pelo sentimento de que a abertura e a participação levarão ao questionamento interno dos lucros e da parte para quem os gerou.
 
Depois de Geraldo Vandré, fica difícil uma frase original. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. O desafio está aí colocado. Ou damos os anéis ou fatalmente poderemos perder os dedos algum dia.
   
    Autor: 
 

Paulo Pereira, Diretor Presidente da Eventos RH
Autor do livro Profissionais & Empresas - Os Dois Lados de Uma Mesma Moeda no Mercado de Trabalho, Editora Nobel.


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